Loading...
DestaquesDocumentos sobre Paratinga

Centenários paratinguenses

Siga-me

Tiago Abreu

Extensionista em Comunica Estúdio
Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Siga-me

Últimos posts por Tiago Abreu (exibir todos)

A porteira é aberta. Um Fiat Palio desgastado, o qual utilizei para chegar com meu tio, chega funcionando à propriedade rural de Cláudio Brito, um senhor de 91 anos. Sentado no banco e de barba espessa, o idoso proferia poucas palavras. Com vários de seus filhos reunidos do lado de fora, o homem constituía, talvez sem imaginar, uma cena de família vivida com certa frequência em cidades interioranas como Paratinga.

A voz do sujeito do interior pode até ser vista de forma pouco importante entre as fontes, mas ali, Cláudio tinha muito a transmitir com suas poucas palavras. Era julho de 2017 e o país, em todo o contexto de reformas do governo de Michel Temer, atestava uma máxima incoerente sobre progresso. Em uma pequena frase, a avaliação que Cláudio fez, com seus filhos, era que independentemente de quem estava no poder, para ele, enquanto sujeito da zona rural e de pequeno poder aquisitivo – aqui reduzido ao adjetivo pobre –, sempre estava em desvantagem.

Sua propriedade faz parte do povoado Poços, fundado pelos Britos em continuação de um processo imigratório nas caatingas. O começo se deu ainda na década de 1930, quando Gabriel Pereira de Brito se tornou proprietário da Fazenda Boqueirão, hoje conhecida como Boqueirão de Regino. Ao seguir os passos do irmão, Venâncio Pereira de Brito também saiu de Macaúbas, cidade vizinha, e fez sua morada na localidade, que se faz próxima da sede urbana, mas caminha em ritmo próprio de meia idade.

A velocidade encarada pelos idosos está num compasso o qual parte da população mais jovem dificilmente entenderá. Afinal, mais do que uma lógica da vida inédita para os mais novos, os idosos alcançaram um nível de serviço e contribuição ao país por décadas e, agora, quando mais precisam de quem auxiliaram, são colocados em segundo plano quando o assunto é qualidade de vida.

Com mais de 30 mil pessoas e uma longa história a se guardar desde os tempos indígenas, Paratinga é um município que definitivamente tem vocação para antiguidades. E ser antigo não é ser velho ou ultrapassado. Mas na imagem do paratinguense médio, cuja visão enxerga nos mais antigos pouco valor em suas experiências e histórias, os idosos recebem um tratamento pouco avantajado diante de suas necessidades de saúde, lazer e infraestrutura.

Mas, é claro, o desafio de cuidar de idosos não é nada fácil, porque um dia foram independentes e, depois de muito tempo, como nas épocas infantis, novamente precisam de assistência. Martinha Porto Dourado, professora do Colégio Estadual Evandro Brandão, é responsável por cuidar de seu pai, Alcir do Vale Dourado, que dispõe de 89 anos de idade vividos entre seu forte engajamento político, os problemas de saúde de sua família e seus problemas sensoriais de audição. Sua recusa em utilizar o aparelho adequado o põe em perigo nas ruas dia a dia.

Além dos percalços que pessoas como Alcir, morador em área central da cidade, tem a enfrentar com suas limitações físicas, a loucura do tráfego em Paratinga, especialmente pela manhã, democratiza o caos por ser um desafio para jovens e anciãos. É uma aventura manter-se intacto no agito central. São carros, motos, bicicletas, animais, calçadas desniveladas, poeira, nenhuma sinalização e muita paciência para chegar onde se quer.

Em casa, ainda consta a dificuldade de ter o auxílio de um parente ou um profissional que tenha especialidade em cuidar de idosos, os quais, muitas vezes, ainda convivem com doenças como diabetes, trombose, colesterol e até variados tipos de câncer. O salário também não é lá muito atrativo. Para uma cidade a qual mais de 50% da população vive em situação de pobreza e muitos idosos recebem valores próximos ao salário mínimo do INSS, pagamentos em torno de 200 reais não sustentam um serviço de qualidade. Para um país ainda negligente com sua juventude, ser idoso é ser guerreiro e, ao mesmo tempo, submisso aos bons e maus ventos da temporalidade.

2 comments
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

artigos recomendados pelos editores
%d blogueiros gostam disto: