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Documentos sobre Paratinga

Gestão em dias difíceis

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Tiago Abreu

Extensionista em Comunica Estúdio
Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
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Era 29 de maio de 1958. O jornal O Semanário, da cidade do Rio de Janeiro, principal veículo da imprensa nacionalista do Brasil, publicava reportagem de José Evandro de Oliveira Brandão sobre o comício que marcou o lançamento da Frente Nacionalista Paratinguense, movimento político jovem de várias demandas, entre elas a produção de um jornal chamado O Ibopatinga.

Ibopatinga foi mais que uma audaciosa publicação jornalística de duas décadas executada por estudantes de Ibotirama e Paratinga. O jornal, cuja proposta visava discutir as transformações sociais e culturais locais, também influenciou a dinâmica política do município e a vida de Zenon Leal Porto, hoje com 81 anos de idade.

Quase sessenta anos depois e parte de seus ex-colegas estarem in memoriam, Zenon rememora suas intenções em produzir o veículo jornalístico na época. Nascido em 1936, fez sua trajetória escolar em Paratinga, Januária e Belo Horizonte, onde acrescentou Contabilidade como parte de sua formação profissional. “Aí eu terminei. Parei. Quer dizer… parei a escola, mas continuei estudando. Até hoje ainda estudo (risos)”.

Sua residência se dá na R. Marechal Deodoro da Fonseca, um dos logradouros do centro de Paratinga. Filho do também ex-prefeito José Duarte Porto, Zenon completa suas argumentações com dados e análises. “Decidimos ter um jornal daqui da região. O que tinha era O Pharol, de Petrolina e Juazeiro, mas não era bom. Eram coisinhas simples, não reivindicava nada, tanto que distribuíam de graça. Meu pai mesmo recebia”.

“Fizemos O Ibopatinga, mas o negócio era caro. Não tinha comércio para financiar o jornal. A turma também que estudava em Belo Horizonte e fazia o jornal, de qualquer maneira, foi se distanciando e viajando. Eu mesmo viajei e tudo ficava mais difícil. De vez em quando chegavam mais alguns. Uns não se interessavam pelo jornal, o pessoal não cooperava muito”, conta. O conteúdo era impresso na capital mineira.

Em 1962, Zenon é eleito prefeito do município pelo Partido Republicano (PR), em uma concorrência eleitoral na qual desbancou César P. Cavalcanti. No entanto, defende a vitória não por causa do jornal. “Do povo, tinha muita gente que era contra. Não queriam porque sabiam que o jornal, de qualquer maneira, ia prejudicá-las na política. E nem era tão político assim”.

Pré-regime

O mandato de Zenon se deu entre 1963 até 1966, um período notório na história política brasileira da tomada dos militares ao poder Executivo nacional. Enquanto isso, na velha Paratinga, a situação era, segundo o ex-prefeito, um atraso em infraestrutura, educação e saúde. A consequência era o isolamento regional pelo qual a cidade viveu no último século.

“Por muitos anos, o Alcides [de Oliveira Dourado] cedeu a casa dele para ser uma escola e foi morar de aluguel perto da farmácia. Ele era farmacêutico. O município tinha nove professores e dos estaduais não lembro a quantidade, mas eram poucos. Mas a escola era boa. Muito boa. E, depois, os colégios no interior foram funcionando”, avalia Zenon, que ainda reiterou o apoio do interior.

Praticamente não havia estradas. “Estrada era só para cavalo. Passava um carro de boi com dificuldade e, dos outros, nem se fala. Não passava. Não tinha carro no município. Tinha um caminhão que era do campo de irrigação, depois apareceu outro, uns dois ou três. Quase todas as estradas do município foram feitas na minha gestão. Foram mais de 200km de estradas”.

“As que existiam foram alargadas, removidos os tocos com enxadão e cavador. Daí surgiu incentivos para o pessoal comprar carro para andar. Não tinha ponte. Aí fizemos uma ponte no Santo Onofre e na Volta da Serra”, acrescenta. Hoje, a ponte da Volta da Serra existe sob concreto, feito com a iniciativa do governo estadual, depois que a estrutura de madeira fora destruída com a cheia do rio.

Mas não é só de males que Paratinga vivia naquele período. Zenon elogia, por exemplo, a produção dos lavradores. “Hoje, como os anos são secos, não tem mais nada. Mas antes tinha produção de farinha de mandioca, milho, arroz e feijão. As raças de gado melhoraram. O gado no município, de uma maneira geral, é razoável. Tá magro agora porque não tem pasto, mas a raça já é melhor”, opina.

A saúde era outro aspecto preocupante na cidade. Os sanitários, segundo ele, eram raros nas casas. Uma das iniciativas foi construir um hospital. Com isso, avalia o desenvolvimento da medicina preventiva. Zenon conta ainda, rindo, que todo ano não conseguia fugir dos sintomas da malária. Pelos riscos de doenças, muitos paratinguenses não atingiram a longevidade, outros sequer alcançaram a idade adulta.

“Tinha muito barbeiro, mal de Chagas, e isso eu comecei a combater antes do Governo Federal. A maioria das casas eram de enchimento e a noite os barbeiros picavam os habitantes. Por isso colocamos um bocado de veneno por aí. Tinha gente, naquela época, que não aceitava colocar veneno na casa, nas paredes. Era perigoso mesmo. Mas o cara dormia fora no dia que botava e, no dia seguinte, podia mudar pra lá”, detalha.

A seca no São Francisco em janeiro de 2017 | Foto: Tiago Abreu

Tensões

Uma de suas principais marcas na gestão municipal – e caso complexo em plena ditadura militar – foi a execução da rede de água da cidade. A ação foi promovida pelo então deputado Manoel Novaes, o qual incluiu, juntamente com a Codevasf, o projeto no orçamento da União. “Mas ele brigou com o deputado Luís Viana Filho, que foi governador da Bahia, foi chefe da Casa Civil à Revolução e, com esse prestígio, ele tirou do orçamento”.

“Mas aí chegou o material de Santa Maria da Vitória. Tinha um gerente de Pirapora da Comissão do Vale do São Francisco (Cvsf), era um grego engenheiro. Era um cara trabalhador em Pirapora, e o prefeito chegou por lá. Aí ele disse ao cara que a comissão tava sem dinheiro, não tinha dinheiro pra pagar nem o frete, para que ele pagasse o frete e aplicasse o dinheiro. Ele não quis e passou um telegrama para mim”, relembrou.

“Ele me disse que a ordem era aplicar, mas o prefeito de Santa Maria não queria ficar com as despesas do frete. Decidi pagar o frete, trouxe pelo rio. Aqui já tinham dois caminhões contratados por mim. E fiquei na condição de pagar o pessoal”, lembra o ex-prefeito, que iniciaria os trabalhos em seguida.

Mas, segundo ele, César, o candidato derrotado nas eleições, o denunciou aos militares. “Aí quando o cara chegou, ouviu umas pessoas, olhou a rua e decidiu ir embora. Ele disse que ‘era o único lugar que eu vi o pessoal trabalhando. Eu não vou investigar isso aqui não’. Foi embora. Mais tarde veio um tenente aí mas não teve problema. Ele voltou, pediu só uma gasolina, voltou para Ibotirama e lá caçou um mandato, foi lá pra Barreiras e caçou outro mandato”, conta.

No entanto, mesmo sem maiores impasses, o ex-prefeito ainda teve problemas a enfrentar. “A prefeitura gastou muito dinheiro. Quase um milhão com essa brincadeira do frete, e também porque no fim das obras faltava uma peça cara que custava seiscentos e tantos cruzeiros. Comprei em Salvador, colocaram e funcionou. Atualmente há estação de tratamento, mas não é muito boa. Tem que ajeitar”, critica.

“No interior não sei se chegou. No Boqueirão de Regino, acho, era poço artesiano. Hoje pode não funcionar bem, mas a água chega do São Francisco. Nas Alagoas, Muquém, Patos, Bom Sucesso, Boa Vista, nem sempre tinha poço. E cavar poço artesiano, naquela época, era difícil. Aqui era para ter luz hidráulica antes da Lapa, não teve porque Viana Filho cortou também. Era para construir um hotel e um colégio agrícola no Paulista, irrigar a ilha, asfaltar a estrada de Ibotirama à Lapa e as do interior encascalhar”, pondera.

Presente

A prefeitura passou, o jornal faliu, e Zenon passou 6 anos em Barreiras. Hoje, trata seus problemas de saúde, comuns à idade, com hidroginástica. E não perde o hábito pela leitura. Na noite de 2 de agosto, estive em sua casa e as agitações em torno da crise vivida pelo governo Temer pelas suspeitas de corrupção eram latentes nas visões do ex-prefeito, que encara na educação e na prática de leitura uma possibilidade para o futuro do país.

Outro tema definitivamente presente era a perda da Comarca de Paratinga, determinação emitida pelo Tribunal de Justiça da Bahia em julho. “Desde o meu tempo queriam fechar. Eu vinha batendo com os deputados para não fecharem e consegui. Agora tá aí… Sem juiz, sem promotor, se quiser fazer qualquer documento terá que ir na Lapa. É um atraso”, comenta.

A seca não está distante das avaliações de Zenon, que ainda defende as arborizações as quais, segundo ele, foram promovidas em sua gestão. “Rapaz, aqui chovendo tem condição de ter coisa boa. No Paulista eu fiz o banho direitinho, murado, e desenvolveu. Hoje é um lugar grande. Tem luz, tem água, tem hotéis, pousadas. Melhorou, porque antigamente você ia lá e não achava um ovo pra comprar. Tanto que os pedreiros começaram a construir o prédio escolar e desistiram, porque passavam fome. Você não achava nada, ninguém pra trabalhar. Hoje não, desenvolveu bem”.

Sua visão não é de todo pessimista, e avalia os benefícios de morar numa cidade de menor porte. “Aqui é viver tranquilo, ter tranquilidade. O povo recebe bem quem vem de fora é uma cidade alegre, cheia de festas, de tradição folclórica. Não tem grandes oportunidades, mas dos anos 70 pra cá começou a ter. Tem muita gente do interior, inclusive, que já fez ensino superior”.

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