Loading...
DestaquesNarrativas do Encontro

“O cara que falar assim ‘eu sei!’ tá mentindo” – Martins Muniz e os Amigos do Cinema

Lara Satler

Lara Satler

Pós-Doutorado em Cultura Contemporânea, no Programa Avançado de Cultura Contemporânea, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em curso. Doutorado em Arte e Cultura Visual (PPGACV/ FAV / UFG), Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás. Pós-graduação em Filosofia Política pela Universidade Católica de Goiás (2005). Graduação em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Goiás (2001). Professora na Universidade Federal de Goiás (UFG), na Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), onde ministra as disciplinas Teorias da Imagem I e II e Cinema Colaborativo, e coordena o Projeto de Extensão Aspas Produtora e o Projeto de Pesquisa ?O grupodidatismo de Youtubers?, vinculado ao Núcleo de Pesquisa em Teoria da Imagem (NPTI / PRPG-UFG / CNPq).
Lara Satler

O título deste artigo de opinião expressa a compreensão de Martins Muniz sobre o aprender e produzir filmes. Pronunciado em uma das entrevistas com o realizador e articulador do Sistema Cooperação – Amigos do Cinema implica na noção de que é preciso estar ativa e continuamente estudando e realizando filmes para aprender sobre eles. Traduz sua percepção de que a presunção no conhecimento adquirido é uma armadilha perigosa em um campo cujas tecnologias da imagem e metodologias do fazer são e podem ser constantemente revistas, recriadas e recompostas.

Não apenas em nome de uma diversidade fílmica, mas também pela necessidade de superar adversidades infra-estruturais e financeiras para a realização e ainda a fim de construir seus próprios métodos narrativos, o Sistema CooperAÇÃO já é parte da história fílmica de Goiânia, Brasil. Evidência disso é o nome Martins Muniz na premiação, categoria Cinema Experimental,  da Associação Brasileira dos Documentaristas – Seção Goiás (ABD-GO).

Martins Muniz criou o Sistema CooperAÇÃO – Amigos do Cinema, que já lançou mais de dezessete produções, entre filmes de curta, média e longas metragem. Criado em 1999, em Goiânia, Brasil, se apresenta como “um grupo de amigos que produzem [de modo] independente. Técnicos e atores unidos com um só objetivo, estudar cinema”, que tem como meta “estar sempre exercitando e ao mesmo tempo fazer uma vitrine cultural, expondo nosso trabalho”.

Inspiradas em práticas artísticas contemporâneas, as obras do Sistema CooperAÇÃO apresentam certo descaso (há quem afirme desconhecimento) dos padrões estéticos hegemônicos do audiovisual. O que é tratado como erro técnico em narrativas do cinema clássico está presente nas obras desse grupo. Estão ali em nome de um processo que se constrói e reconstrói continuamente, o qual intitulamos método cooperação de produção audiovisual.

O método cooperação de produção audiovisual é criado a partir do desafio de realizar filmes com trabalho voluntário tanto dos atores quanto da equipe técnica. O voluntariado implica em um comprometimento fugidio e, por isso, há ausências no set de filmagem, às vezes do protagonista da narrativa. Devido às ausências, desenvolveu-se a elaboração e direção de roteiros flexíveis. Como consequência, a obra final possui flexibilidades na coerência e coesão da narrativa.

Na ficção O Capitão do Mato (Martins Muniz, 2013), os negros fujões da senzala são representados por atores diferentes na cena interna e na externa. Lançado em mídia DVD, o média metragem de ficção conta a história do surgimento de quilombos, no interior do Brasil, a partir da saga de dois escravos fujões, constantemente perseguidos pelo protagonista que intitula a narrativa, o Capitão do Mato.

 

Figura 1: À esquerda o ator Paulo Vitória e à direita o Jefferson Lobato

 

Figura 2: À direita, o ator Paulo Vitória e à esquerda o protagonista do vilão, o escravo fujão representado por Marcos Barbosa

 

Na montagem da narrativa clássica, está convencionado que a sequência das cenas dão sentido de continuidade espaço temporal. Assim, se na primeira cena dois personagens arrumam sua matula em um espaço interno (Figura 1) e na sequência ambos saem de uma porta (Figura 2), logo compreende-se que houve uma ação contínua em que eles saíram de dentro da casa exibida na segunda cena. Contudo, neste trecho do filme, os atores são diferentes, embora sejam dois na primeira e segunda cenas (interna e externa).

Este é um exemplo de como o roteiro e direção flexíveis são constituintes do método de cooperação desenvolvido pelos Amigos do Cinema. Se o espectador desconhece o método, pode julgar a obra considerando apenas a incoerência e falta de coesão. No entanto, tal espectador desconhece que a coerência e a coesão da cinematografia clássica é um método que se convencionou hegemonicamente. Outros métodos de narratividade ficcional podem existir, inclusive os que dispensam a coerência e a coesão como é o método cooperação deste grupo.

Outro exemplo pode ser citado. Quando um ator inicia sua atuação, mas não alcança a dimensão do papel ao longo das gravações, ele pode ser substituído durante o filme, implicando que um mesmo personagem seja representado por um ator no início e por outro no fim da narrativa. A substituição pode ser feita por um voluntário do set de filmagem com ou sem experiência em atuação, bastando aceitar o desafio de cooperar com a produção.

Na figura abaixo, o protagonista Capitão do Mato (atuado por Alexandre Marques) acaba de capturar o negro fugitivo (Marcos Barbosa), ator de teatro que aparece no set de filmagem no processo do filme já em curso, faz o teste, inicia as filmagens, ganha espaço na narrativa e torna-se o principal coadjuvante.

Figura 3: Encarte do DVD lançado em 2013 pelo Sistema CooperAÇÃO – Amigos do Cinema

 

Sem ensaios prévios e memorizações de longos textos, o método cooperação fragmenta as captações das cenas para que atores de teatro e não atores experimentem a atuação em cinema. O fragmentar torna a experimentação possível, pois recorta os textos em trechos memorizáveis no momento da preparação técnica para a gravação. Ou seja, enquanto a equipe monta o cenário, a luz, testa áudio e câmeras, o voluntário memoriza sua fala e é dirigido pelo diretor. Este aspecto torna o método cooperação um laboratório formativo em que se aprende pelo exercício de experimentar.

Nele, o voluntário coopera com o grupo no projeto de uma ficção e este coopera com aquele, pois ao final das gravações todos do set assistem a cena e comentam o que funcionou e os pontos de melhoria. Assim, o método cooperação funciona alegoricamente como um brincar de fazer filmes entre amigos. O momento da brincadeira, o processo, tem um peso igual ou maior que o resultado, o filme.

Desse modo, o desafio dos Amigos do Cinema – o voluntariado – exigiu-lhes o desenvolvimento de um método de construção narrativa, o método cooperação que se traduz por um modo próprio de fazer filmes neste grupo. Por isso, em nome de uma cooperação prazerosa é que os Amigos do Cinema constroem suas narrativas cinematográficas ficcionais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

artigos recomendados pelos editores
%d blogueiros gostam disto: