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Tiago Abreu

Extensionista em Comunica Estúdio
Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
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Há um ditado sempre repetido, pelos os que envelhecem, de que “no meu tempo era melhor”. As músicas, os filmes, a vida diária, tudo se torna objeto de crítica para aqueles que, constantemente, rememoram o passado em suas trajetórias. Sentir nostalgia, aquele sentimento melancólico e de profundidade, por vezes, impossível de ser descrito em palavras, faz parte da dor, da alegria, dos bons e dos maus momentos. Assim, nos acompanha em todo instante, seja na rotina, nas viagens, e certamente no futuro que se torna presente.

Minha última viagem à Paratinga tinha se dado em dezembro de 2010. Eu ainda estava no início da minha adolescência. Até 2016, me mantive distante da dinâmica e da vida paratinguense. Eram os compromissos acadêmicos, eram os contratos de trabalho, o desconforto… um turbilhão de motivos que ainda assim e talvez, não justificassem a ausência.

Em junho daquele ano, no entanto, tudo foi diferente. Aproveitei para viajar e permanecer alguns dias na cidade. Em tempos de inverno, sabia que encontraria uma paisagem seca e sem chuvas, algo bem diferente do cenário de verão e fartura nas viagens de férias. Mas nada importava. Afinal, reencontrar parentes e, especialmente, minha avó, não tinha preço.

Meus tios gostavam de frisar que o município, ao longo daquele período, não havia mudado em termos de “atraso”. Nos aspectos econômicos, políticos e até em termos de infraestrutura, realmente vi poucas mudanças naquele lugar. A BA-160 continuava a ser uma das piores rodovias do país, a estrada do Boqueirão seguia sem qualquer tipo de pavimentação e a seca seguia assustadora e voraz.

Uma das cenas mais lamentáveis que pude contemplar ocorreu em frente ao Rio São Francisco. O grande alicerce da cidade e protagonista de toda uma história sertanista agonizava em uma seca assustadora. De um outro lado, a Igreja Matriz de Paratinga, vítima de um incêndio no final do ano anterior, ainda se aparentava imponente, embora frágil.

Saímos dali e nos dirigimos para a zona rural. Ao chegarmos, reencontro minha avó. Apesar de estar bem, uma de suas frases me chama a atenção. Ela disse, olhando para longe: “Estou no fim dos dias”. Suas falas rememoram, diretamente, ou diretamente, ao meu avô. Mesmo quinze anos depois de sua morte, a saudade pairava forte em sua rotina. Afinal, foram quase 50 anos de convivência que não se esquecem da noite para dia.

Diante de tudo isso, tinha uma reportagem para fazer. Mas tomei o risco de não me dirigir diretamente a ninguém com um roteiro de perguntas, tampouco fazer anotações. Apenas guardei os momentos na memória. E, diante de tantas questões negativas que me apresentavam naquele contexto, ainda conseguia ver que o amor de todos por aquele lugar e as memórias estavam vivas. A explicação, para mim era que embora vários de nossos sentimentos, sob um aspecto racional, não convencem, sempre se sobrepõem aos contratempos do dia a dia.

A diversão infantil, outrora presente em brincadeiras coletivas, agora existia nos aplicativos de smartphone que, inclusive, surgia como uma facilidade na comunicação entre todos. E, pela primeira vez, tinha energia. Eram poucos dias e, com tantas novidades, estava difícil processar. O que as palavras não conseguiam exprimir, as imagens alcançaram. E as levei comigo para Goiânia.

Não posso me esquecer, ao fim de tudo, que prometi não demorar mais tanto tempo para voltar. Fui bem recebido pelos meus parentes e por aquela terra que, aparentemente não tem nada a oferecer, mas promoveu algumas das melhores memórias da minha vida.

A reportagem foi publicada no final de julho de 2016.

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