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Vivian Maier: a história da babá que se tornou uma das fotógrafas mais intrigantes do século XX

Letícia Dias

Estagiária em Comunica Estúdio
Aspirante a jornalista, amante da cultura pop e assinante da Superinteressante.

Paradoxal, ousada, misteriosa, excêntrica, privada e incomum são alguns dos adjetivos que aqueles com quem conviveu utilizam para descrevê-la. Vivian Dorothea Maier nasceu no inverno novaiorquino no dia 1 de fevereiro de 1926. Embora nascida nos Estados Unidos, viveu suas primeiras décadas nos Alpes Franceses em um vilarejo nomeado Saint-Bonnet-en-Champsaur.

Na primavera de 1951, aos 25 anos, atravessou o oceano rumo a Nova York, cidade em que sua mãe, e antes dela sua avó, atuaram como domésticas. Ao chegar na metrópole, trabalhou por algum tempo em uma oficina de costura até perceber que queria uma atividade onde pudesse estar em contato com o mundo, tornou-se então babá.


Vivian atuou como cuidadora por mais de 40 anos. Na velhice, encontrou dificuldades financeiras, alguns amigos, entre eles, muitas pessoas que ela zelou quando babá, resolveram a auxiliar. Juntaram-se para comprar a ela um apartamento em Chicago, pagando suas contas até 2009, ano em que faleceu aos 83 anos, em decorrência de uma queda que fraturou sua cabeça.


Essa teria sido a breve biografia de Vivian Maier, entretanto, após sua morte foram descobertos mais de 100.000 negativos, que revelaram um trabalho surpreendente e trouxeram à tona a vida oculta de uma babá. A obra deixada por Vivian apresenta uma perspectiva única a respeito da compreensão humana que intriga todos aqueles que se deparam com sua composição. No entanto, além da qualidade técnica e importância sócio-histórica das fotografias o que mais chama a atenção do público é o mistério por trás da fotógrafa.

Casacos largos, chapéus de feltro, roupas pesadas e botas militares. Pessoas que conviveram com Vivian a descrevem como alguém bastante reservada e que sempre buscava esconder sua fisionomia. A mulher alta com corte de cabelo reto, que dirigia uma bicicleta motorizada e sempre andava com a câmera Rolleiflex em volta do pescoço é um mistério. Tal fato acabou levantando o questionamento: Será que ela queria que o mundo conhecesse sua arte?


Vivian é uma incógnita até mesmo para aqueles que puderam partilhar de sua companhia por algum período de tempo. Dizem que ela carregava a vida consigo por onde ia e que era obcecada por guardar fragmentos de memórias. Mas a realidade é que ninguém jamais chegou a conhecê-la realmente, seja por receio de se aproximarem de alguém com aparência e comportamento excêntricos, seja pela própria apreensão dela em se comunicar. Sendo assim, a única forma de compreendê-la é através de sua fotografia.

Foi em 1952 que Maier começou a capturar o vivido contraste da cidade, e na vida urbana encontrou a matéria-prima a ser lapidada pelas lentes de sua câmera. Fotógrafos de rua são uma curiosa mistura de sociáveis e solitários, abraçam o imprevisível citadino ao mesmo tempo em que tentam permanecer invisíveis.


Essas são características que podem ser notadas nas fotos de Vivian, onde existe uma visão única e intimista das pessoas fotografadas ao mesmo tempo em que seus auto-retratos revelam uma busca por pertencimento social, interesse em saber como ela se encaixava no mundo.

As fotos de Vivian apresentam senso de humor e tragédia, consciência política e social. A babá possuía um olhar privilegiado que a permitia enxergar a beleza nas coisas simples e geralmente despercebidas pela maioria dos olhares. O fato de tirar fotos para si mesma fez com que liberdade e independência sejam características atrativas em sua obra.

Cada um tem sua própria interpretação a respeito de Vivian Maier, a artista, antes desconhecida, que hoje vive em muitas imaginações. Como ela aprendeu a fotografar se mantém um mistério, no entanto, é perceptível que ela sabia o que estava fazendo. Vivian era mestre em capturar emoções reais e em experienciar a vida através da fotografia.


Se ela queria ou não que seu trabalho fosse exposto, provavelmente nunca se saberá. No entanto, a maior lição deixada por Vivian é que se você se considera uma artista e faz sua arte sem limitações, não precisa de nenhuma validação além de si mesma.

Concluo esse texto parafraseando Van Gogh, um artista que compartilha com Vivian o ar misterioso e o reconhecimento post-mortem: “estrelas são as almas dos poetas mortos, mas para se tornar uma estrela você tem de morrer”.

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